Fonte: Doutor Gabriel Carneiro.
O morro que já foi fundo de mar 🌊⛰️ Todo ano, milhões de romeiros sobem ao Morro de Bom Jesus da Lapa para rezar dentro de uma gruta. Poucos sabem que estão entrando num mar de mais de 600 milhões de anos. O morro é um bloco de calcário, a mesma substância da cal e das conchas. Esse tipo de rocha nasce no fundo de mares rasos e quentes. Ele pertence ao Grupo Bambuí, um pacote de rochas que se formou entre 630 e 540 milhões de anos atrás, quando um mar invadiu o interior do continente e cobriu o que hoje é Minas, Bahia, Goiás e Tocantins. É o mesmo calcário que aflora em Feira da Mata, em Lagoa Santa e no Peruaçu. E os restos de animais marinhos? Naquele mar, os animais mal existiam. Quem construiu boa parte do calcário foram bactérias, que formavam tapetes em camadas chamados estromatólitos, as estruturas de vida mais antigas da Terra. No Bambuí do norte de Minas foram achados fósseis de Cloudina, pequenos tubos que estão entre os primeiros animais do planeta a fabricar um esqueleto. A gruta do Santuário foi escavada pela chuva. A água absorve gás carbônico, vira um ácido fraco e, ao longo de milhares de anos, dissolve a rocha por dentro. Os sulcos verticais nas torres do morro, os lapiás, são marcas dessa mesma água. Do outro lado do rio, a paisagem é outra. A Serra Geral, na divisa com o Tocantins, é a borda do chapadão de arenito do Grupo Urucuia: areia de dunas de um deserto do tempo dos dinossauros, empilhada por cima do antigo mar. Essa areia virou uma esponja gigante, o Aquífero Urucuia. É ele que mantém os rios Grande, Corrente e Carinhanha correndo na seca e que alimenta o São Francisco quando não chove. Por isso o bombeamento sem controle para irrigação preocupa: se o aquífero baixa, baixam os rios, e baixa o Velho Chico. Cuidar da água de baixo da terra é cuidar do rio.



























